
As instalações elétricas inadequadas foram a principal causa de incêndios de origem elétrica no Brasil em 2025, respondendo por 706 das ocorrências registradas no país e por 33 mortes, segundo o Anuário Estatístico de Acidentes de Origem Elétrica 2026, divulgado em abril pela Abracopel (Associação Brasileira de Conscientização para os Perigos da Eletricidade). Em residências, os incêndios de origem elétrica cresceram 22,1% na comparação com 2024 e já representam quase metade (47%) de todos os casos do país. Em cinco anos, esse crescimento levou o total nacional de 606 para 1.304 registros (+102%). A rede especializada em materiais elétricos afirma que o dado confirma o que a equipe técnica já observa no dia a dia: imóveis com fiação antiga e disjuntores fora de padrão concentram boa parte do risco.
O problema não é histórico isolado de 2025. Levantamento mais recente do Corpo de Bombeiros Militar do Ceará (CBMCE), divulgado em setembro de 2026, mostra que os incêndios domiciliares no estado subiram 11,8% entre janeiro e agosto deste ano na comparação com o mesmo período de 2025: de 1.025 para 1.146 casos, a maioria em residências unifamiliares. O recorte regional reforça que a curva de crescimento identificada pela Abracopel no fechamento de 2025 segue em andamento neste ano.
O descompasso entre a instalação antiga e o consumo de hoje
Quando uma casa foi construída, é comum que sua rede elétrica tenha sido dimensionada para poucos equipamentos: geladeira, chuveiro, alguns pontos de luz. Hoje, o mesmo imóvel pode ter ar-condicionado, forno elétrico, carregadores múltiplos e eletrodomésticos de alta potência ligados simultaneamente, sem que a fiação ou o quadro de disjuntores tenham sido atualizados na mesma proporção.
“Instalação elétrica não é algo que se faz uma vez e depois se esquece. Com o tempo, os condutores envelhecem, o isolamento pode se degradar e o calor provocado por sobrecargas ou conexões inadequadas pode acelerar esse processo. Além disso, os equipamentos elétricos das residências mudaram, aumentando significativamente a demanda por energia, enquanto muitas instalações continuam com o mesmo padrão de 20 ou 30 anos atrás”. Analisa Fellipe Ramon, engenheiro eletricista e supervisor de ensino da escola da Loja Elétrica.
Esse descompasso é justamente o que gera sobrecarga: quando a corrente elétrica que passa pelos fios excede a capacidade para a qual eles foram projetados, o aquecimento pode danificar o isolamento e, em contato com materiais próximos, iniciar um princípio de incêndio.
Sinais de alerta que não devem ser ignorados
Segundo Fellipe Ramon, alguns sintomas costumam anteceder um incêndio de origem elétrica e merecem atenção imediata:
Disjuntor que desarma com frequência, mesmo sem excesso aparente de aparelhos ligados;
Tomadas ou interruptores quentes ao toque, ou com marcas de escurecimento;
Cheiro de queimado sem origem aparente, especialmente perto do quadro de distribuição ou em equipamentos de alto consumo;
Fiação visivelmente ressecada, quebradiça ou com fita isolante remendada;
Ausência de disjuntor DR (diferencial residual), item que corta a energia em caso de fuga de corrente e já é item obrigatório pela NBR 5410 em áreas molhadas.
“Quando o disjuntor comum desarma direto, muita gente simplesmente religa e segue o dia. Na prática, isso é um alerta de que a instalação elétrica está sendo exigida além do que suporta, e ignorar esse sinal repetidas vezes é o que antecede boa parte dos casos que viram notícia”, complementa [NOME DO ESPECIALISTA].
O que muda com a atualização do sistema de proteção
A recomendação técnica, reforça a Loja Elétrica, é a revisão periódica da instalação por um eletricista habilitado, com atenção especial a imóveis com mais de 15 anos sem reforma elétrica. A troca de disjuntores termomagnéticos antigos por modelos atualizados, somada à instalação de disjuntores DR, é apontada como uma das medidas de menor custo e maior impacto na redução do risco, já que interrompe automaticamente a energia diante de sobrecargas ou fugas de corrente, antes que o aquecimento se torne perigoso.
Com o crescimento de 22,1% nos incêndios elétricos residenciais registrado pela Abracopel em 2025, e com sinais de que o quadro segue piorando em 2026, a expectativa do setor é que a atualização dos sistemas de proteção deixe de ser tratada como reforma opcional e passe a ser vista como manutenção preventiva essencial, no mesmo patamar de prioridade dado a revisões periódicas de gás ou estrutura. “O investimento em proteção elétrica é pequeno perto do risco que ele evita. A instalação elétrica de uma casa sem a correta proteção não avisa antes de falhar; por isso a revisão preventiva precisa vir antes do problema, não depois dele”, conclui Fellipe Ramon.
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